sexta-feira, 6 de junho de 2008

120 anos de abolição, preconceito e intolerância

Em 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel assinava a Lei Áurea, libertando os negros escravizados no Brasil, último país do mundo a acabar com o trabalho escravo, sem, contudo, garantir-lhes as condições mínimas de sobrevivência e igualdade de fato entre a sociedade dominante da época.
Foram mais de 300 anos de escravidão e como estamos a apenas 120 da abolição, existe aí um déficit de pelo menos 180 anos e que o poder público tem sim a obrigação de promover ações afirmativas de igualdade com a manutenção da política de cotas nos diversos segmentos visando a reparação, afinal, se durante 300 anos ter a cor da pele preta foi motivo de exclusão, por que hoje não ser de o de inserção?
Tem-se uma notória e registrada dívida histórica com o povo negro, mas não queremos pagá-la, pois, o perverso, maldito e doentio preconceito, explícito ou não, está tatuado na alma do nosso povo, seja qual for a classe social, como demonstrado nas recentes declarações insanas do coordenador da Faculdade de Medicina da UFBA, que atribuiu à política de cotas a reprovação do curso na avaliação do MEC, sugerindo inclusive que negros e baianos são desprovidos de inteligência!
O caso do professor não é isolado, mais gente do que se imagina, em nosso miscigenado país, pensa igual a ele e discriminam no olhar, no falar, no gesto e em tudo mais que os satisfaçam na tentativa de rebaixarem quem tem a cor da pele preta, à suposta condição de ‘inferior’.
Nunca sofri preconceito declarado por ser negro, mas sou observador e é claro que já me olharam de lado nas ‘alamedas das grifes’ dos shoppings, em restaurantes, blitzes policiais (estas, para eu que sou motociclista, costumam ser cruéis), cinemas, lojas de departamento, bancos (as portas giratórias dos bancos dão um capítulo inteiro de um livro) e até, pasmem, em órgãos públicos.
Em Salvador, cuja população predominante é negra, os eventos são veladamente segregados, existe uma barreira social e consequentemente racial que determina ‘lugares de preto e os lugares de branco’. Estive recentemente na gravação do DVD de uma grande banda de axé no Parque de Exposições da capital baiana e pensei que estivesse na belíssima Florianópolis, dada a quantidade de pessoas da pele clara e de cabelos lisos!
Os blocos de carnaval são como um verdadeiro apartheid nos moldes do que acontecia até bem pouco tempo na África do Sul, com os brancos se divertindo enquanto os pretos carregam as cordas, abrindo caminho entre as mais de duas milhões de pessoas do lado de fora. E qual a origem disso tudo? Os bolsões de pobreza de hoje, formados quase que em sua totalidade pelo povo negro, originaram-se da falta de políticas públicas lá atrás, há 120 anos atrás, para ser mais específico, quando os negros foram jogados à sua própria sorte.
Como não se assustar e se indignar com a forma como ainda se trata a religião e cultura africana neste país? A Constituição Federal garante liberdade de reunião para fins pacíficos e liberdade de culto, o que infelizmente não impede que adeptos do candomblé, religião de matriz africana trazida pelos escravos, sejam perseguidos por alguns religiosos intolerantes, fatos estes que me remetem à época das ‘inquisições’, quando as pessoas eram queimadas vivas por conta de uma loucura religiosa coletiva.
Apesar de considerar muitíssimo importante, (ainda) não possuo religião definida, respeito todas e tenho grandes amigos em todas elas, todas mesmo! Faço minhas orações, creio em Deus e como fui criado numa família cristã (alguns católicos, alguns protestantes) acredito em Jesus como salvador do universo.
O fato é que por conta de não seguir nenhuma doutrina religiosa específica, me sinto a vontade, por exemplo, para poder usar um escapulário católico que ganhei de presente, acender um incenso de jasmim, ler uma bíblia cristã protestante e ter no quarto uma imagem de Santa Bárbara, também presente. Tudo normal, tudo tranqüilo, mas quando uso uma das três camisas que possuo com estampas inspiradas no candomblé, até o ‘sinal da cruz’, feito por uma senhorinha eu já recebi! Só faltou ela dizer ‘vai de retro’! O mesmo não ocorre, por exemplo, quando visto uma das duas camisas com motivos ‘indianos’, com imagens e estampas de deuses indianos e hindus e que todos estão aí usando sem o menor constrangimento ou reprovação, sejam de que religião for.
120 anos depois, continuamos doentes! Basta acordarmos pela manhã para ‘respirarmos, comermos ou bebermos algum tipo ódio ou discriminação’, ou com a cor da pele de fulano, que paga suas contas, ou com a religião de beltrano, que você jamais deu sequer um bom dia, ou ainda com o que cicrano, que nem lhe conhece, faz com seu companheiro ou companheira na intimidade de seu lar...
Danival Dias

3 comentários:

Mau Camus disse...

Vai no post anterior. rs
Postei um comentário lá, ao invés de postar aqui.

Abs

Angelina Aragão disse...

Olá Danival,
Passadinha rápida para agradecer suas palavras no espaço interativo do meu blog e deseja-lhe um maravilhoso domingo.

Abraços.

Lívia (( RaciocinandO )) disse...

Nossa..Achei muito interessante a sua Coluna.. suas palavras Tbm..Parabéns ..

SucessO !!!

Lívia Oliveira